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terça-feira, 2 de agosto de 2016

Um doping para nossa consciência moral?

O APERFEIÇOAMENTO MORAL 
Na iminência dos jogos olímpicos do Rio de Janeiro, para além dos conhecidos problemas brasileiros (infraestrutura, segurança, Zika, crise política...), teremos que lidar com a recente revelação do esquema generalizado de ‘doping' da Rússia, pelo qual a excelência no esporte é utilizada como instrumento de política, com o consentimento dos atletas envolvidos, apesar dos riscos a que estão expostos. Infelizmente, dissemina-se a noção de que o atleta que não faz uso de estimulantes é ‘naive', podendo mesmo prejudicar a equipe. A dopagem é cada vez mais elaborada e as agências de controle sempre estão um passo atrás daqueles que se valem de métodos ilícitos.
Aqui se revela um dilema moral: o recurso das mais avançadas terapias não possui como objetivo a cura de doenças, mas o “melhoramento genético” como forma de aperfeiçoar as capacidades físicas de uma pessoa, colocando-a além das normas gerais do esporte, tradicionalmente ditado pelo binômio talento/esforço. 
Essa degeneração do esporte em espetáculo - pela busca desenfreada por corpos perfeitamente ajustados a uma modalidade esportiva - provoca um mal-estar generalizado. Para quem defende o banimento desses atletas pelo COI, prevalece a noção de que esportistas geneticamente modificados ofendem a segurança e a igualdade, seja por colocar em risco a própria integridade dos atletas, como por permitir flagrantes injustiças em termos de resultados.
Em contrapartida, outros poderiam alegar que sempre houve uma desigualdade genética natural entre os atletas e as desigualdades genéticas provocadas pelo melhoramento não seriam piores do que aquelas, principalmente se o tratamento for seguro e disponível para todos os competidores. Pessoalmente, acredito que o pior do melhoramento genético, em qualquer nível, é o de corromper a essência de uma competição esportiva, na qual há de prevalecer o talento natural associado a ética do empenho. A integridade de um esporte não se resume tão somente ao “jogar conforme as regras”, mas ao fato de se honrar as excelências determinantes a cada prática e premiar as habilidades e dons dos melhores ‘players'.
De fato, o Filósofo Michael Sandel (Contra a Perfeição, Ed. Civilização Brasileira, 2013) enfatiza que a questão fundamental não consiste em assegurar o acesso igual ao melhoramento, e sim se devemos aspirar a ele. Será que deveríamos dedicar as nossas proficiências tecnológicas para curar doenças e auxiliar pessoas a recuperarem a saúde ou será que também deveríamos nos melhorar reconstruindo nossos corpos e nossas mentes? Ou, até que ponto a dignidade humana é reduzida quando se permite a criação de duas classes de seres humanos: aqueles que tem acesso as tecnologias de melhoramento físico e psíquico - verdadeiros “super-humanos” - e os demais, reles mortais da subespécie do 'homo sapiens', que terão que lidar com o natural envelhecimento corpóreo e intelectual. 
Ademais, o melhoramento genético impacta diretamente na liberdade de cada qual perseguir os seus resultados conforme os próprios esforços e a consequente responsabilidade decorrente daquilo que se faz e alcança. Se a ciência permitir que se sobrepuje o acaso da loteria genética pela escolha do melhoramento terapêutico, com a dedicação ao esporte perdendo o protagonismo para esteróides e músculos modificados, o atleta transmitirá o mérito da conquista própria para o farmacêutico, desvirtuando o caráter de dádiva, inerente as potências e êxitos humanos.
Porém, a questão do melhoramento nos esportes é apenas a ponta do ‘iceberg' em termos de uma sociedade distópica. O ser humano não persegue apenas um aperfeiçoamento físico, ele deseja manipular a sua própria natureza tendo a ciência como ferramenta para incrementar a memória, habilidades cognitivas, o humor e até mesmo escolher as características físicas de nossos filhos. Esse é um vasto campo no qual a filosofia do direito procura estudar os efeitos do ‘enhancement'.
 Alguns poderiam crer que o recurso a qualquer técnica de ‘melhoramento' é legítimo e cabe na autonomia existencial de “ser o melhor”, dentro das exigências competitivas das sociedades liberais. Todavia, ao invés de alterarmos a essência humana para nos adequarmos as contingências do mundo, deveríamos unir recursos e esforços para tornar mais tolerantes e inclusivas as pessoas, coletividades e instituições, cientes de nossas limitações, como seres humanos imperfeitos que somos.
E, para que isso aconteça, ao invés de um aperfeiçoamento físico ou cognitivo, necessitamos urgentemente de um “melhoramento moral”. Lamentavelmente o ser humano é despreparado para o futuro. O desenvolvimento alcançado pela educação e pela filosofia dos últimos 2.500 anos nos adaptou a vida em pequenas comunidades, mas não nos equipa com a psicologia moral necessária para enfrentar os novos tempos de uma civilização tecnológica a beira da destruição de seus recursos naturais. 
Alcançamos um momento crucial em que a saída para evitar a catástrofe será um ‘upgrade' em nosso altruísmo e senso de justiça para direcionar toda essa tecnologia em prol do bem da humanidade. Temos que reconhecer que as sociedades democráticas avançaram em termos de preparar as pessoas para a não violação da integridade alheia, inclusive com conquistas recentes em termos de respeito a cor, opção sexual e religiosa. Por outro lado, receio que essa evolução moral seja apenas um “epitélio” de civilidade, pois a história demonstra que quando as condições políticas retrocedem, multidões rapidamente retomam comportamentos bárbaros que aparentemente haviam sido superados, o quê exige que cada nova geração seja arduamente treinada para introjetar condutas virtuosas.
Mais do que um compromisso geral de abstenção em não ofender direitos de terceiros, precisamos de pessoas que se disponham a agir de modo colaborativo em benefício de todos – e não apenas dentro de seu círculo de conhecimentos -, sobremaneira em prol de indivíduos desconhecidos de locais distantes e das gerações futuras. Se Buda, Confúcio e Sócrates não nos permitiram alcançar esse estágio evolutivo superior, os acadêmicos Ingmar Persson e Julian Savulescu (Unfit for the Future – Oxford Press, 2012) sugerem que o único modo de enfrentar os desafios necessários a sobrevivência da espécie humana será a exploração de novas tecnologias e da biomedicina para ampliar os horizontes de nossa consciência moral, convertendo-nos em seres solidários e cooperativos, capazes de sacrifícios pessoais em prol de pessoas anônimas e gerações distantes. 
De forma clara e direta, a tese é a de que devemos acelerar a internalização de motivação moral em cada indivíduo através dos recursos que a neurobiologia possa nos oferecer a curto prazo, como drogas, tratamentos e engenharia genética, a fim de que cada pessoa aperfeiçoada possa agir da mesma forma que as pessoas moralmente mais evoluídas da sociedade. O homem médio seria tal como Mandela, Luther King e Madre Teresa. 
Os críticos objetariam que essas pessoas se tornariam robôs estúpidos, pois o “aperfeiçoamento biomoral” eliminaria a intrínseca liberdade humana de praticar atos imorais, ao invés de simplesmente nos conceder a base moral, legal e a prudência de refrear a prática de comportamentos demeritórios. A par desse dilema, se é inegável que em breve a ciência nos ofertará os meios, como você vislumbra o humano dos próximos tempos? Um ser prometeico, individualmente programado para a plenitude física e cognitiva, mesmo egoisticamente ciente de que o acesso a essa vida será um luxo de poucos em detrimento de muitos, ou um indivíduo geneticamente direcionado a uma moral virtuosa, que contribua coletivamente para a permanência de toda a espécie de forma duradoura?

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Instalando o Zenwalk Linux de um pendrive

Zenwalk  é uma distribuição baseada no Slackware com foco em praticidade  e fluidez assim como o Ubuntu em relação ao Debian e o Sabayon em relação ao Arch.



Eu tive um problema para instalar Zenwalk a partir de um USB, bom como sempre, uma vez baixado a imagem do Zenwalk, usando um programa como o Unetbootin para transformar o arquivo .ISO em um flash drive USB inicializável.

encontrei uma saída nesta Wiki:

http://wiki.zenwalk.org/index.php?title=Install_from_USB



Conecte a unidade flash no computador ou notebook de destino e inicialize através do USB (ESC, F8, de acordo com a placa-mãe).

O sistema é iniciado e aparecerá o menu de configuração. Antes de iniciar a instalação, é necessário montar o dispositivo de memória USB.

Saia da instalação e, em seguida, selecione prompt de comando.

O primeiro passo cria um diretório para ser o ponto de montagem para a unidade USB.

Digite os seguintes comandos:

mkdir /zenwalk


O segundo passo, olhar em que a unidade é USB, para mostrar todas as unidades, digite:

fdisk - l


Na terceira etapa, seguirá para montar o drive USB:

mount /dev  / /zenwalk [USB]


onde [USB] é a localidade que é a unidade, para sistemas de um disco rígido (a maioria dos computadores portáteis e netbooks) geralmente somente ser /dev/sdb ou /dev/sdb1.

Por exemplo, no meu caso foi:
mount /dev/sdb1 /zenwalk


Uma vez que a unidade flash USB foi montada, vá para a tela de instalação novamente:

setup


Siga as etapas usuais. Sim, execute uma instalação manual, na parte em que o instalador pergunta se você deseja instalar a partir de um CD, ou um diretório local.

Selecione o diretório local e no campo, digite:
/Zenwalk


Se você tiver uma instalação automatizada, em um ponto o instalador vai reclamar que você não tem um CD de instalação. Então, ele lhe dará a opção de instalar a partir de um diretório local. Como acima, digite "/ Zenwalk".

terça-feira, 26 de junho de 2012

Gênios do Opensource, Atenção AQUI, PLEASE!

Esta Semana Inventei de Instalar 2 Linux no meu PC - Se ficou curioso pra saber o pq, pergunte no Twitter - E fiquei, como a maioria absoluta, EMPOLGADAÇO com a leveza e praticidade do Lubuntu, Distro da Canonical que usa o LXDE como ambiente gráfico.

A dita cuja (versão 12.04) cuja roda maravilhosamente no meu PC que é basicamente isso aki:

ASUS M2N-MX Motherboard
Processor AMD Sempron 3000+
Memory RAM 1 GB  DDR 2

desktop basico Lubuntu

Tudo ia numa "naice",  até que... o inesperado, o insólito, O INACREDITÁVEL, ACONTECEU.

O HTML 5 "VIDEO" DO CHROME/ CHROMIUM TOMOU ÁCIDO.

tela de video travada

Tipo, quando setei o youtube para tocar os vídeos em Html5 ( como sempre fiz desde que a função começou a ser implementada, há 4 anos  ) , atualizei o sistema e pus alguns vídeos pra tocar, passou a acontecer o seguinte: a aba do vídeo demorou a responder os comandos, o vídeo tocava picotado e a página demora pra aparecer na tela enquanto o vídeo toca e eventualmente apresenta um "borrão" azul, como visto na snapshot acima.

O Opera e o FireFox, que também instalei nesse sistema, não sofrem desse problema, apenas o Chromium e seu "primo rico", o Google Chrome - e olha que já tentei me livrar disso apagando profile, reinstalando o bicho, desativando plugins, funcionalidades, até reinstalei o sistema todo... SEM RESULTADO.

Dando umas fuçadas sobre o assunto, encontrei umas notas aqui e ali, e resolvi soltar o verbo nesse espaço e mostrar, em primeira mão, o que pode ser um bug feio do chrome -  alias, bug não, um verdadeiro MegaKabuterimon, que pode comprometer seriamente os planos da Google sobre o Html5:



Acreditem se quiserem, meus amigos, a aba que rodou mais liso foi A DA FOTO DE BAIXO, pois, como podem ver, o GPU Boost do navegador sugou menos processador que uma única aba html5,
 e ERA UM VÍDEO EM FLASH.

NOTA ÜBERPOWER DE ATUALIZAÇÃO (DIA SEGUINTE À POSTAGEM ORIGINAL) :

dando uma olhada nas configurações do Lubuntu, deparei com esta:

Drivers adicionais (janela)

Na primeira vez em que olhei essa janela, o sistema estava marcado em "current", ou seja , mesmo com os pacotes normais do sistema atualizados, o driver de vídeo não estava, o que poderia explicar a imcopatibilidade do Chrome/Chromium.

Então, simplesmente setei em "current-updates", reiniciei o PC, e...



Os vídeos em html5/ WebM passaram a rodar sem engasgos, e o uso de GPU estava sob controle.

Isso fica como um bom aviso aos portadores de tablets e netbooks - sempre que atualizar seu sistema, não esqueça de ver seus drivers, pois o Google é tão prafrentex que seu browser perde rapidinho sua compatibilidade com drivers antigos em sua escalada de versões.



sábado, 6 de agosto de 2011

Os "desigrejados" são alienados?

Texto de Gustavo Arnoni.

Nos últimos 2 meses recebi uma quantidade imensa de e-mails que diziam respeito a crítica à igreja e a crítica aos críticos da igreja.

De um lado temos os que demonizaram a instituição e fizeram dela o mal supremo do cristianismo. Segundo estes, a essência do amor, da aceitação e responsabilidade social e da igualdade entre os indivíduos foi totalmente perdida no momento em que a igreja virou um jogo político formada por uma hierarquia não-bíblica. A solução para tal problema é: “Fuzilem a instituição!”.

O problema desta posição é uma visão extremamente limitada sobre a instituição. Com certeza a instituição foi prejudicial, mas não por causa dela mesma e sim por causa dos homens que a fizeram. A instituição por si não é nada, ninguém vê a “instituição” extirpando a graça de Deus. Pelo contrário, quem faz isso é o homem. O homem como organizador da igreja institucional é que causa os problemas da igreja instituída.

Desta forma, toda crítica que diz que a instituição é um mal para o cristianismo e uma crítica superficial. O problema é dos homens, inclusive desses críticos! É impossível conviver em um local com várias pessoas sem que algumas regras e hierarquias sejam formadas. Isto é necessário para a organização e, para o horror dos “críticos”, presente na bíblia! Existe uma ordem e uma hierarquia na bíblia. Obviamente não uma exploração de poder, ou distanciamento do pastor com o rebanho como as vezes acontece na instituição. Mas negar que existe uma ordem, uma certa hierarquia, é fazer uma leitura sobremodo superficial e baseada em preconceitos (diga-lhe Frank Viola, padroeiro dos sem-igreja!).

Mas, por outro lado, existe a crítica dos que orgulhosamente dizem: “Eu sou um fundamentalista”. Estes, por sua vez, sequer levam em conta o que os teólogos que ELES dizem ser liberais estão dizendo. Não sabem partir do texto ou do pensamento mesmo deles, mas já os analisam com uma série de preconceitos e críticas. Liberal para esses é todo aquele que não concorda com aquilo que eles pensam. Contra a instituição? Liberal... Não crê na inerrância bíblica? Liberal... Não crê na predestinação? Herege... Simpatiza pela neo-ortodoxia? Ah, é quase um liberal...(!). Orgulhosos e donos da verdade eles rejeitam toda crítica que pode ser construtiva proveniente da igreja emergente, dos teólogos da libertação, dos próprio liberais, etc. Já ouvi inclusive alguns dizendo que o Brennan Manning e o Philip Yancey são liberais (!!!!!!!). Isto revela um total preconceito, tradicionalismo (no mal sentido da palavra), e o que é pior, desconhecimento daquilo que tanto criticam.

O que me gerou indignação diante de tal grande quantidade de e-mails é que um acusa o outro de erro, de tolice, de falta de fé, de desconhecimento da graça de Deus. O outro é sempre o alienado! Nenhum pensa em criticar o seu próprio pensamento, pois isso exige confronto e troca de ideais. O caminho do equilíbrio, da retenção do que é bom, é na maioria das vezes ignorado. Acaba se formando os “fundamentalistas de esquerda” (contra tudo o que é tradição) e os “fundamentalistas de direita” (contra toda a inovação e novo pensamento).

A temperança é o caminho necessário para o cristão, como já dito, o equilíbrio. Aconteceu a mesma coisa nas antigas discussões sobre predestinação e livre-arbítrio. Quantas “cabeças rolando” por uma discussão que, em qualquer tomada de decisão em um ponto de vista, exclui uma outra possível leitura da realidade e da teologia.

O que proponho não é um relativismo, mas sim um pensamento dialético (não no sentido de Bultmann ou Barth), que busca ver os dois lados, ponderar, conflitar, e chegar em uma conclusão, onde um relativismo não chegaria.

Mas quem sabe eu também não possa me tornar um defensor fanático de um método contra o fanatismo? Cabe então até o questionamento sobre isso. Contudo, ao que parece, a necessidade da teologia hoje é achar um ponto de equilíbrio, de convergência entre os diversos pólos opostos defendidos por seus “fieis”.

Fica aqui esta reflexão, se você se irritou ou se identificou com algo, era pra você; se você se sentiu indiferente, também era pra você!

terça-feira, 7 de junho de 2011

O ateísmo lúcido [e desnorteante] de Lovecraft


Mais uma do Paulo Brabo.

Meu professor de redação H. P. Lovecraft, de quem herdei o vício de abusar de adjetivos, era um ateu convicto, ocasionalmente militante. A mesma convicção materialista que o fez eliminar dos seus contos de terror qualquer traço do sobrenatural levou-o a duvidar de todas as manifestações tradicionais de religião.

Sua histórias não são povoadas por vampiros, fantasmas ou assombrações, e pelo mesmo motivo no seu universo não há espaço para Deus ou para intervenções sobrenaturais1. Tudo no cosmos é gerado pelo acaso, e este domado apenas pelas leis cegas da física. No grande contexto do universo, a vida orgânica na terra não passa de “um acidente minúsculo e temporário”, sendo a própria humanidade “um acidente ainda menor e mais temporário”.

Essas convicções, mais ou menos populares hoje em dia, estavam longe de serem comuns na década de 1930, a última do autor. Acho particularmente notável, no entanto, que a grande reserva que Lovecraft encontrou para apresentar contra o cristianismo não foi o fato de a fé cristã pressupor um universo sobrenatural que contrariava sua visão de mundo materialista. Sua indignação era ao mesmo tempo mais profunda e mais lúcida2:
O cristianismo não tem como ser levado a sério. É ingênuo e anticientífico culpar o mundo por não se conformar a ele – visto que se trata de uma ilusão quimérica e poética totalmente alienígena à natureza humana. [O cristianismo] é absurdo, porque nenhuma raça ou nação poderia (ou deveria) jamais chegar a conformar-se a ele.
E basta este trecho para Lovecraft se mostrar mais agudo e inclemente do que Richard Dawkins ou qualquer outro ateu militante da nova geração. Em particular, Lovecraft enxerga que o cristianismo é uma ameaça para o conceito de raças e nações justamente por propor um ideal elevado demais, um sonho de fraternidade aparentemente impraticável e “totalmente alienígena à natureza humana”.

Ao contrário dos ateus militantes contemporâneos, ele sabe avaliar o verdadeiro peso do seu adversário. Para Dawkins, o cristianismo é uma ameaça à civilização por ser uma religião como as outras; para Lovecraft, é uma ameaça justamente por não ser uma religião, já que as religiões tendem a apoiar e legitimar o estado de coisas.

Para Dawkins o cristianismo é um risco perene porque recusa-se a reconhecer a natureza última da realidade; para Lovecraft, ele é um risco porque sonha teimosamente poder alterá-la. Para Dawkins, o cristianismo é uma ameaça por patrocinar a injustiça; para Lovecraft, é uma ameaça por sonhar uma justiça excessiva: por ser uma intransigente ingenuidade e uma declarada insensatez, uma poesia que pode transtornar o mundo se raças e nações não resistirem ao apelo evangélico de conformarem-se a ela. Para Dawkins o escândalo está em, diante de todas as evidências, o cristianismo recusar-se a reconhecer que não há céu; para Lovecraft está em, diante de todas as improbabilidades, o cristianismo insistir em implantá-lo na terra.

Dos dois, só Lovecraft sabe do que está falando.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Assista videos sem plugins com uma ajudinha do Firefox


Tutorial adaptado do Viva O Linux.

Já tentou rodar algum vídeo a partir do Navegador Mozilla Firefox (também chamado de Firebird, Iceweasel, Palemoon, Whatever ), sem sucesso e, pior, sabendo que, pela extensão do mesmo este rodaria sem problemas através de um player instalado em sua máquina?

(Isto acontece muito comumente em sites como o do Porta Curtas,  ou streams de rádio/TV )

Já tentou instalar os plugins de vídeo do mplayer e do kaffeine para o Mozilla (mozilla-mplayer e kaffeine-mplayer -  ou funcionando esporadicamente?

Pois a solução  prática desse problema existe, e se chama mediaplayerConnectivity!

http://img.vivaolinux.com.br/imagens/artigos/comunidade/thumb_mais_extensoes1.png

Ao selecionar o add-on/extensão MediaPlayerConnectivity você vai instalar no seu navegador Mozilla, um gerenciador de Media Player  que executará seu vídeo diretamente no player (mplayer, kaffeine, xine, VLC, etc), sem a necessidade de instalar os plugins acima.

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Siga este passo a passo para instalar:

1) Abrindo o site de repositórios Add-ons do Mozilla pelo painel ( Ferramentas - Complementos)


1.2)Caso ele não apareca, clique no Link para o site de repositórios "Mais extensões" na parte inferior direita da janela.

2)Uma vez encontrado, clique "Add/Adicionar ao Firefox";

3) Clique em "Install Now"/"Instalar Agora" ;

4) Reinicie o Navegador Mozilla quando solicitado.  Pronto! Voce acabou de instalar o Mediaplayerconnectivity.

Aqui é o barato do negócio:

Clicando com o botão direito do mouse no ícone do MediaPlayerConnectivity:

Aparece o menu com acesso às configurações: 


E, uma vez lá, você pode alterar o player, aproveitando certas características especiais dos mesmos, podendo usar um ou mais players diferentes para cada formato multimídia.


NOTA DO PERSEVERANTE:

Se você ativou a opção  "extrair links de codigo javascript" e ainda assim não consegue assistir o vídeo:

- Vá no menu do Firefox  - Exibir > Código - Fonte, com ele aberto na página do vídeo;

-  Na janela/sidebar aberta, procure a URL (endereço web) que termina em .flv ou .mp4 - geralmente os vídeos da internet aparecem nesses formatos, por ex.: http://es.video.netlogstatic.com/v/oo/005/397/5397250.flv; Se for Youtube, é so colocar o endereço com o ID do video ex.: http://www.youtube.com/v/_JokM_fExpI

- Copie e cole o endereço no campo de URL do seu player.

Boa maratona de vídeos! 

terça-feira, 21 de setembro de 2010

A história de amor e ódio da misericórdia com as ordens da criação

Espelhado no texto original do Paulo Brabo.

No princípio era o caos, até que Deus instaurou a ordem. O primeiro capítulo de Gênesis enfatiza à exaustão o caráter organizatório da iniciativa divina primordial. Deus, o primeiro enciclopedista, fixa os astros nas suas órbitas, fatia céu e terra, divide céus e mares, coloca luz e escuridão em compartimentos estanques, põe dia e noite em suas respectivas prateleiras, faz brotar cada planta rasteira, cada árvore, cada ave, cada peixe, cada animal rastejante, cada animal doméstico e cada animal selvagem “segundo as suas espécies”, distribui o ser humano entre homem e mulher, reparte a semana em sete dias, fende o dia em tarde e manhã, e coloca em cada um metódicos crachás escritos por ele mesmo.

institucionalização aparece na história como característica fundamental e inseparável do universo e do próprio Deus. A ordem das coisas na terra, demonstram as burocráticas enumerações de Gênesis, reflete o planejamento da mente divina no céu. Dito de outra forma, as coisas são precisamente como deveriam ser, e o nosso é o melhor dos mundos possíveis.

Ao longo dos séculos, na mente da esmagadora maioria dos cristãos, esse estado inicial da criação tem representado uma espécie de intocável Idade do Ouro. Segundo esse modo de ver as coisas, Gênesis 1 e 2 estabelecem o conjunto de circunstâncias que encapsula a essência do que o cristianismo deve defender. Aqui estão, afinal de contas, a soberania divina, a singularidade da humanidade em relação às demais criaturas, a instituição da família e do casamento, o direito de domínio do ser humano sobre a natureza. O mundo como Deus o criou em Gênesis estaria dessa forma demarcado por “ordens da criação”, categorias muito precisas e muito fixas que cabe aos puros de coração defender, porque violá-las é devolver o mundo ao desfigurante e degradante caos que precedeu a iniciativa ordenatória de Deus.

Não mexa no meu queijo.

Contra as mulheres, pela procriação

É o argumento das “ordens da criação” que, ainda hoje, impede que mulheres sejam ordenadas ao sacerdócio ou ao ministério em igrejas cristãs de todas as estirpes. Em 1969, por exemplo, o sínodo da igreja luterana do Missouri legislou que “diante das declarações da Escritura que a mulher não deve ensinar ou exercer autoridade sobre o homem, entendemos que mulheres não devem assumir cargos pastorais ou qualquer outra posição que viole de alguma forma a ordem da criação”.

Afinal de contas, deixa claro o Apóstolo, é coisa vergonhosa que uma esposa fale na igreja; a própria Lei afirma que as mulheres devem ser submissas; Adão precedeu a mulher na ordem cronológica da criação; o homem não foi criado para a mulher, mas a mulher para o homem; o marido é a cabeça da esposa; a mulher veio do homem, e não o homem da mulher; o homem não foi enganado, mas a mulher deixou-se enganar pela serpente. A conclusão é clara: na hierarquia ideal da criação, que não cabe ao ser humano querer violar, a mulher é inerentemente subordinada ao homem. Almejar uma posição de igualdade funcional é arrogância e rebelião; é lutar contra as ordens da criação, ou seja, contra a integridade da tessitura mais essencial do universo.

O relatório do mesmo sínodo faz os seguintes esclarecimentos adicionais: “A ordem da redenção não deve viciar o relacionamento apropriado entre mulheres e homens estabelecido na ordem da criação”. “A unicidade do homem e da mulher em Cristo não apaga a distinção estabelecida na criação”. “A subordinação da mulher ao homem na ordem da criação é uma relação funcional dada pelo criador, que escolheu estruturar a existência em determinadas linhas”. “O casamento e o estado pertencem às ordens da criação”. “Deus é o criador de certos relacionamentos básicos que impedem a vida e a sociedade de degenerarem em anarquia”. “Paulo não queria que as mulheres transtornassem a hierarquia de funções estabelecida na criação, especialmente logo após a queda”. “A subordinação da esposa ao marido é parte da ordem da criação”. “A convicção do apóstolo é que a igreja não deve minar, mas santificar as ordens da criação”. “Paulo está decidido a defender a instituição do matrimônio como pertencente às ordens da criação, em que a renovação não é alcançada por meio de desordem e ruptura, mas pela observância e pela santificação da prática de autoridade por parte do marido e de submissão por parte da esposa”.

Em outras palavras, a mulher pode não ser criatura de segunda classe, mas na ordem da criação ficou estabelecido que deve agir como se fosse. Mulheres e esposas devem abraçar esse destino de bom grado, da mesma forma que homens e maridos devem se conformarem à dura posição de primazia que a criação deixou-lhe nas mãos.

A questão do sacerdócio feminino é hoje relevante para uma diminuta fração da população, mas sua lógica subjacente é a mesma que manteve fechado, durante dois mil anos, o acesso da mulher a um status igualitário em termos jurídicos, financeiros, políticos e profissionais. A inferioridade da mulher é coisa que nem ao menos se discutia, por ser uma das verdades evidentes patenteadas na ordem da criação.

Assim, ao longo de dois mil anos de civilização cristã, as mulheres foram silenciadas e reprimidas, ao mesmo tempo em que eram acusadas (via Eva, de quem teriam herdado suas fraquezas) de serem culpadas por virtualmente todos os males que assolam a humanidade; foram perseguidas como bruxas, torturadas sem dó, separadas de suas famílias e queimadas publicamente; tiveram suas vidas legisladas, suas opiniões enterradas e direitos cerceados, mesmo nos nossos dias.

E contra esse estado de coisas não ocorria a ninguém dizer uma palavra, porque tacitamente todos concordavam que Deus “escolheu estruturar a existência em determinadas linhas”. A estratificação social do primeiro casal e suas relações internas de autoridade e subordinação haviam sido estabelecidas pelo Criador no princípio, e é assim que deveriam se manter. A alternativa era inimaginável.

“Quem está pedindo o voto para as mulheres?” quis saber Justin Fulton em 1869. “Os que amam a Deus e seguem a Cristo é que não são! A maior parte dos que reivindicam o voto para as mulheres repudiam a legislação do Céu e os prazeres domésticos, e deixam-se levar pela infidelidade e pela ruína”.


Contra os negros, pela escravidão

Aplacados pela lógica da “ordem da criação”, os cristãos conviveram pacificamente, ao longo de dezoito séculos, com toda forma de escravidão e preconceito de raça.

A supremacia dos brancos sobre todas as outras raças havia sido, afinal de contas, estabelecida diretamente por Deus. Os negros, em particular, eram tidos como descendentes de Cão, o filho amaldiçoado de Noé cujo filho Canaã fora condenado a ser “servo dos servos de seus irmãos”1.

Com essa desculpa, a divisão racial fendeu por séculos países como os Estados Unidos e a África do Sul, com a devida sanção de seus líderes cristãos. “A escravidão foi estabelecida por decreto do Deus Todo-Poderoso”, explicou Jefferson Davis, presidente da Confederação. “Ela é sancionada pela Bíblia em ambos os testamentos, de Gênesis a Apocalipse. Tem existido em todas as épocas, sendo encontrada entre os povos da mais alta civilização e nas nações de maior destaque nas artes”.

Como ainda se crê que as distinções fundamentais entre as raças foram estabelecidas por Deus na criação, em muitas áreas dos Estados Unidos o casamento entre pessoas de raças diferentes permanece sendo visto como inaceitável – verdadeira abominação. Um juiz da Virgínia observou em 1959: “O Deus Todo-Poderoso criou as raças branca, negra, amarela, malaia e vermelha e colocou-as em continentes separados. A não ser que se queira perturbar esse arranjo de coisas, não vejo motivo para esses casamentos [mistos]“.

Pela pátria, contra as outras nações

Na Alemanha de Hitler, nos anos que antecederam à Segunda Guerra, o conceito cristão de ordem da criação alimentou o nacionalismo doentio que acabou gerando o nacional-socialismo – nazismo – e seus excessos.

Para os teólogos do popularíssimo movimento “Cristãos Germânicos” o Volk, a nacionalidade, era visto como uma ordem particular de Deus para a humanidade. A pátria era a vocação espiritual por excelência e o Estado o mais direto desdobramento dessa ordem divina, pelo que rebelar-se contra a liderança de Hitler era rebelar-se contra Deus.

“Cada desvio da ordem divina”, admitiu Walter Künneth (que nem mesmo era simpatizante de Hitler), “ocasiona decadência e caos”, enquanto Emile Hirsch explicava que a nacionalidade é “um meio de revelação de Deus”. Gerhard May argumentava que a liberdade cristã é na verdade obediência às leis e demais determinações do Estado, e em favor de sua posição citava a postura do Novo Testamento sobre a escravidão.

A liberdade de opinião que exigiam os membros da Igreja Confessante, a liberdade de discordar da ordem divina manifesta no Estado, era “a satânica liberdade dos pecadores”, que nenhum cristão deveria querer reivindicar para si. Pois “a vontade divina expressa na lei é demonstrada pelas ordenanças claras e invioláveis que governam a vida das nações”2.

Dito de outra forma, para ser cristão é preciso ser patriota, e para ser patriota é preciso demonstrar apoio irrestrito às ações do governo3. Pois foi assim que Deus quis quando deitou nas formas do futuro as ordens imutáveis da criação.

Pela fraternidade, pela igualdade, pela Graça

Ao longo da história os cristãos que ousaram discordar da supremacia da “ordem da criação” tiveram de lutar contra a corrente da interpretação estática das Escrituras. Afinal de contas, o próprio Novo Testamento não oferece uma palavra de condenação à escravidão; ao contrário, em muitas passagens parece sancioná-la sem encontrar na questão qualquer dilema moral. Era muito difícil para os abolicionistas justificar biblicamente sua posição, enquanto que os escravagistas tinham (e ainda tem) dúzias de versículos para acenar em seu favor. Dispor-se a lutar pela abolição era, em grande medida, dispor-se a lutar contra Deus e contra a Bíblia.

Da mesma forma, os que advogavam pelos direitos das mulheres tinham de procurar uma agulha no enorme palheiro patriarcal e sexista que é o texto bíblico. Para cada momento em que Jesus é amigo das mulheres há dez em que Paulo nos lembra de que Eva é quem foi enganada pela serpente.

O milagre está em que muito lentamente, um imperceptível passo de cada vez, as vozes da misericórdia e da sanidade (que são uma só) acabam sendo ouvidas, mesmo quando os ouvidos são cristãos.

Os anabatistas foram os primeiros a criticar escravidão, logo seguidos pelos quacres e os menonitas, mas foi John Wesley (fundador da Igreja Metodista) quem deu verdadeira forma e credibilidade pública à posição abolicionista.

Influenciado por Barth, Dietrich Bonhoeffer passou questionar diante dos teólogos nazistas toda a validade da sua argumentação. Para Bonhoeffer o argumento das ordens da criação é falho porque pode ser usado para justificar virtualmente qualquer estado de coisas, por mais injusto ou arbitrário que seja. Para ele, as ordens do mundo derivam seu valor não de si mesmas, mas de Cristo, que é a nova criação e portanto a nova referência para todas as coisas. “Qualquer ordem”, enfatiza ele, “pode ser dissolvida e deve ser dissolvida quando deixa de permitir a proclamação da revelação”.

Em todos os casos os proponentes da graça, quando dispuseram-se a combater o preconceito, o racismo, o sexismo, o totalitarismo, a escravidão e o abismo entre as classes tiveram de abraçar a Bíblia sem abraçar-lhe a letra. Não começaram, porque não é possível, negando o sexismo dos patriarcas e discípulos ou a sanção bíblica da escravidão. Como os profetas antes deles, tiveram de apontar para um sentido mais profundo e mais abrangente da mensagem bíblica, uma mensagem transversal fundamentada não na forma dos mandamentos mas no exemplo de Jesus – e na pressuposição de que não há exemplo mais cristão a ser seguido.

Porque em Jesus, se você acredita nele, fica tudo de repente muito claro. Em Jesus, Deus, e portanto a criação, toma partido dos desamparados, dos marginalizados e dos incompreendidos.

No tempo de Jesus todos sabiam que, na ordem dura da criação, os doentes eram pecadores que Deus estava punindo, as mulheres eram seres impuros que não podiam candidatar-se ao discipulado e os pobres eram desamparados por Deus que não tinham recursos para cumprir as minuciosas exigências da lei. E Jesus, contra mundum, beija cuidadosamente cada um e acolhe-os no abraço da graça.

Num único e coerente gesto de vida ele transtorna a ordem estabelecida, coloca as coisas em lugares inesperados e explica que age em nome de Deus. O Filho do Homem deixa que seus amigos colham espigas no sábado, e ele mesmo efetua curas nesse dia de descanso, não apenas porque a criação não está pronta (“meu pai ainda está trabalhando”), mas porque – e eis a grande e desconcertante revelação – “a ordem da criação foi feita para o homem, e não o homem para o ordem da criação”.

O que há em Jesus, é essencialmente, uma crítica pungente a toda espécie de dominação, mesmo a que é feita em nome de Deus. Sua postura é, portanto, uma ameaça a todo conforto e a todo estado de coisas. Agora ele está pendurado na cruz, mas com o tempo sua mensagem alcançará e redimirá a condição de todos os pequenos deste mundo. Agora fecham-no no túmulo, mas graças a ele haverá no futuro um momento em que escravos, pobres, mulheres, crianças e gente de todas as raças não terão mais de se envergonhar da sua condição.

Contra os paranormais, contra o planeta

Agora que você não pode mais contar piadas que ridicularizem os negros, agora que sua chefe ganha mais do que você, os preconceitos embasados no conceito das ordens da criação escolheram novos alvos.

São alvos mais fragéis e inesperados, e portanto mais adequados à predação neste momento da história. Hoje em dia, quando acenam com o argumento das ordens da criação, os cristãos estarão fatalmente [1] condenado a expressão de propriedades que deveriam ser vistas como naturais, já que fazem parte do âmago dos seres humanos (e não humanos também)  e/ou [2] asseverando o seu direito de explorar os recursos do planeta.

Isso porque todos os argumentos bíblicos apontados contra a paranormalidade resolvem-se em nada quando comparados a este, que é na verdade o único: na ordem original das coisas não era assim.

Numa instância paralela, as ordens da criação são mencionadas pelos protestantes norte-americanos como credencial para explorarem até o sumo de forma inconsequente os recursos naturais da terra. Quem irá levantar-se para denunciar os abusos do homem contra a natureza, quando Gênesis assegura que Deus lhe conferiu pleno domínio sobre a terra? Como condenar os desmatamentos, a extinção escandalosa das espécies e o aquecimento global, quando a narrativa da criação esclarece que o homem foi criado para colocar o planeta sob sujeição?

Pelo que lêem em Gênesis, Deus não apenas deu ao homem carta branca para violentar a terra; deu-lhe essa missão.

Contra o medo

Como intuiu Bonhoeffer, o argumento das ordens da criação é um dos que permanece sendo usado a fim de manter estado das coisas confortável para os que se sentem confortáveis com o modo como as coisas estão.

Do mesmo modo, alimentar uma consciência ecológica é, em última instância, voltar-se contra a ordem divina revelada em Gênesis 1. Nosso dever como seres humanos não é preservar o planeta, mas mostrar a ele quem manda; Deus, afinal de contas, está quase pronto para dar-nos um novo e inteiramente remodelado.

E o fundamento para todos esses raciocínios, é preciso enfatizar, é um só: o Criador não quer que seja de outra forma, do contrário teria feito diferente desde o começo. Os verdadeiros crentes desejarão conformar-se à vontade divina, pelo que não ousarão inverter a ordem das coisas.

A solução para o dilema, quero crer, está em determinar até que ponto Deus deixou de ser Criador, ou em que momento a criação foi de fato concluída. A Bíblia, é claro, oferece curiosas evidências para sugerir que a obra da criação permanece em aberto. Deus é, até a última página, aquele que “faz novas todas as coisas”. O Filho do Homem e seus seguidores são em especial descritos como “novas criaturas”, isto é, protagonistas de uma nova e totalmente inusitada criação – porque, observa Jesus, um tanto blasfemamente, “meu Pai continua trabalhando”.

Como propõe Edward H. Schroeder em sua análise sobre a questão da ordenação feminina: se Deus permanece sendo o Deus Criador, como não concluir que as mudanças sociais ocorridas no tempo que nos separa de Paulo, mudanças que acabaram possibilitando o status igualitário da mulher, são obra do mesmo Criador? Como não concluir que foram mudanças sopradas na humanidade pelo exemplo singular e subversivo de Cristo? A obra do evangelho não estará derramando sobre o mundo seus inesperados desdobramentos?
“A consequência clara do evangelho,” observa Schroeder, “é que as ordens da criação são impermanentes. Com o tempo acabarão passando, juntamente com ‘o céu e a terra’”. A igreja não deve temer essa impermanência, porque “a própria igreja veio à existência através de um ato de violação”. A ordem fundamental da criação, pela qual o pecador deve ser invariavelmente punido com a morte, foi espetacularmente contornada pelo esvaziamento de Deus, e dessa formidável violação nasceu uma formidável possibilidade de vida. É por isso que em seu cerne a mensagem do evangelho é um escândalo – uma violação extrema da lógica e da ordem inerentes ao universo.
“A preocupação da igreja”, conclui Schroeder, “deve ser evitar que o próprio evangelho seja violado; fora isso, ela deve deixar que o evangelho promova suas próprias violações, credenciado pela autoridade do próprio Cristo”.
Jacques Ellul, refletindo sobre essas coisas, concluiu que toda a lei e toda a justiça devem estar embasadas em Cristo. O mundo e a condição humana, propõe ele, encontram-se numa situação inteiramente nova diante da revelação e da obra redentora de Deus em Cristo. O que era considerado lei natural deve perder de agora em diante o seu caráter normativo, sendo relativizado pela desconcertante reviravolta da justificação.
Ou, na reflexão de James Alison, nossa visão de Deus como Criador deve deixar de ser a de alguém que fez algo no passado para a de alguém que está fazendo algo nos nossos dias por meio de Jesus – Jesus que estava com o Pai desde o princípio, fazendo todas as coisas.
A escandalosa verdade é que a liga que sustenta o universo não é a família ou o casamento, mas a misericórdia, soprada por Deus e manifesta pelos homens. De um modo transversal o próprio Jesus demonstrou esse princípio quando explicou que “no princípio não era assim, mas o divórcio foi instituído por causa da dureza do coração de vocês”. Em outras palavras, ele está revelando que o divórcio foi instituído, incrivelmente, por uma vitória da misericórdia contra a ordem da criação. Está longe de ser uma solução ideal e não estava prevista na ordem original das coisas, mas é uma resposta da graça diante da irreversível complexidade da condição humana.
Nos dois mil anos que nos separam da cruz a condição humana imergiu em muitas camadas adicionais de complexidade. Porém a misericórdia tem continuando a violar, de forma sistemática e sempre escandalosa, as ordens da criação. Quando a sua obra estará concluída? Talvez no momento em que cumprir-se por completo a profecia de Paulo, e em Cristo não houver mais judeu e grego, civilizado e bárbaro, escravo e livre, homem e mulher.
Ou, para citar João, no momento em que o amor lançar fora todo o medo.
Pois o apego irresistível às ordens da criação é, essencialmente, o apego dos seres humanos (especialmente os do sexo masculino) às formas de dominação, como alternativa ao medo e ao sentimento de inadequação.

 Porque é sabido que os homens, que escreveram até recentemente toda a história, sentem que devem provar continuamente o seu valor, que pensam ser a mesma coisa que sua masculinidade. Se lutavam para manter o estado de coisas por meio de sexismo, do racismo e do nacionalismo é por que temiam instintivamente a competição das mulheres, dos homens de outras raças e dos povos de outras nações.

É pelo mesmo motivo que recusam-se a trocar o seu Hummer, que epitomiza tão adequadamente a sua masculinidade, por uma scooter ou um carro mais econômico. E, porque não querem ver a sua própria privacidade ou "normalidade" de alguma forma colocada em cheque, lutam por um mundo em que não precisem testemunhar os acertos desconcertantes de pessoas dotadas de habilidades mentais incomuns. As ordens da criação acenam com um mundo seguro, em que todas as coisas tem o seu lugar, e é apavorante imaginar que possa ser diferente.

Enquanto isso o Filho do Homem, que morreu virilmente na cruz e procura nos atrair incessantemente para a mesma posição, divulga sem pausa o escândalo e a boa nova de que não há absolutamente o que temer.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Ovelha ou massa de manobra?

Texto original por Rô , do Mulheres Sábias.


versão de Gleybson Monteiro

Hoje, a poucos dias de completar um quarto de século de aniversário, e com uma d´cada de caminhada evangélica escutando volta e meia, por entusiasmo da minha avó, o tesmemunho (Ou seria "triste-munho"?) de um certo pastor que delata certas práticas de certa emissora de TV, além das de "muitos" (diz ele) dos nossos ilustrados representantes políticos.

Isso significa que o inimigo está nos oprimindo por meio desses representantes? Acho que não.

Acredito que ao invés da opressão governamental, tão em voga nos chamados "anos de chumbo", que nossos pais e avós sofreram há uns 30 anos, temos hoje uma “auto-opressão”, uma coisa que nos faz ser parte de toda a engranagem opressora.

Que me faz sentir parte de um país corrupto só porque alguém dotado de sabedoria um dia soltou uma dessas por ai: “No nosso país temos políticos corruptos porque nós que os elegemos somos corruptos”. Eu não elegi ninguém, tenho o direito de não escolher – e ainda mais de considerar a “não escolha” uma escolha. Não quero ser parte de nada, quero continuar divagando no meu quintal. Tenho o direito de ligar (ou não- a negação é uma escolha, talvez a mais óbvia) a caixa de surpresas e não escolher nem Roberto Marinho nem Edir Macedo.

Não quero me culpar, ou me auto-oprimir por poder escolher, Me sinto livre de toda essa baboseira. Sei que estou cercado de pequenas ditaduras. Há tempo me dei conta que nossa família é uma mini-ditadura, com regras impostas, com o poder bem delimitado. E ao passar dos dias eu percebo, que até mesmo em minhas poucas diversões eu vejo uma mascarada ditadura, nas músicas que eu ouço, na roupa que uso, nos passeios , nas pessoas, nos olhares. Então me pergunto novamente,“será que a ditadura já se foi?” Nem sei se isso tem algum sentido ou significado maior. Acredito mesmo é que não quero ser incomodado em minha casa, bem na hora da minha surfagem internética. E mais, que não foi a ditadura que permaneceu e sim a massa de manobra,termo pesado né? Não consegui encontrar outro, é isso mesmo.

Enquanto um monte de robôs pensam que decidem o que bem querem na sua existência,fico eu aqui só pensando, todos massa de manobra, dominados por um poder chamado de "opressão religiosa", em que você não manda nem mesmo em sua própria vida, em sua casa , no seu seu dinheiro, na sua vida profissional, pessoas que não se casam sem ter a orientação de seus Gurus, que não trocam de carro, de casa, o que deve vestir ou não, pois há uma "falsa cobertura espiritual" em que faz de nós verdadeiros robôs manipulados, vivemos sim, uma verdadeira ditadura, ela não acabou. Se não podemos ajudar ou dizimar somos amaldiçoados, pois infelizmente vivemos no meio de uma verdadeira máfia, um verdadeiro Cartel em que homens amantes de si monopolizam a liberdade que Cristo nos deu, deixando as ovelhas doentes, sem pespectivas de nada, sem ao menos poder mudar de aprisco, pois se forem, serão chamadas de rebeldes, lembro me bem quando um amigo meu casou e saiu de nossa denominação, só porque a moça era de outra denominação, e só isso bastou para acarretar N problemas para o pobre irmão.

Como se realmente fossemos manipulados a tal ponto de termos que perguntar se podiam ou não mudar de aprisco, temos que ser realmente ovelhas mudas , cegas, surdas "marcadas pelo Sinhô", como um gado marcado, e estamos caminhando para isso ovelhas adoecidas, aleijadas, sem liberdade de escolhas, vivendo em uma completa prisão religiosa imposta por uma ditadura.

Não devemos esquecer que somos a Igreja de Cristo, sal na terra, que devemos sim nos libertar de todo sistema que nos aprisiona, e olharmos diretamente para Cristo e caminharmos para sermos uma Igreja sem rugas sem máculas, ovelhas saudáveis para glória de Deus pai. Que Deus no ajude, paz seja com todos!